Carta sobre as ameaças aos SUS Campinas – privatização da Atenção Especializada?
É conhecida a precariedade estrutural em que se encontram as policlínicas de especialidades de Campinas. Também é muito sabido de qualquer usuário do SUS Campinas o grande gargalo que encontramos na atenção especializada, a dificuldade de acesso é grande, as filas de espera são longas. Algo realmente precisa ser feito quanto a isso. A proposta de construção de uma nova Policlínica de especialidades vem em boa hora e deve responder aos anseios da população e dos profissionais de saúde.
A Secretaria de Saúde se pronunciou na mídia informando que as obras seriam rapidamente iniciadas em um terreno anexo ao Mario Gatti e que contaria com uma parceria privada para realizá-la. Isso ficou pouco claro, esclarecimentos são necessários com urgência. A informação que nos chega é que este parceiro seria a São Leopoldo Mandic, sob qual interesse? A instituição construirá e gerirá o ambulatório, que será uma dos principais campos de ensino para o curso de Medicina que está se propondo a abrir. Este ambulatório substituiria as Polis II e III e parte do ambulatório do Mário Gatti.
Quais as implicações disto? Primeiro, extremamente grave, é a terceirização e a privatização de serviços do SUS Campinas. Membros da direção da secretaria de saúde continuam afirmando que são contra a privatização do SUS, mas as propostas continuam a surgir e com força devastadora. Teremos nossos profissionais submetidos à lógica da produtividade da iniciativa privada e que pouco se preocupa com a eficácia (resolução real dos problemas), perderemos a gestão dos serviços, teremos ampliadas nossas dificuldades de se fazer redes de atenção entre as unidades básicas de saúde e as unidades de especialidades. Teremos o dinheiro de nossos impostos sendo gastos em taxas administrativas sem nenhum controle social!
Segundo, que curso de Medicina é esse? Será mesmo que a abertura de novos cursos de Medicina responderá à falta de médicos na rede de saúde? Especula-se que a mensalidade deste curso será em torno de R$5000,00. Será que um aluno que passa 6 anos pagando mensalidades nestes valores e cada vez maiores realmente terá como projeto de vida trabalhar ganhando não mais do que R$7000,00 bruto nas unidades básicas de saúde de Campinas? Mesmo um currículo que se coloque, em discurso, como voltado para o SUS e para a saúde da família poderá lidar com este tipo de coisa? É este tipo de ampliação de vagas de Medicina que precisamos para a nossa região?
Como se não bastasse isso, levaríamos pelo menos 6 anos para formar a primeira turma. Solução extremamente pouco eficaz e ainda por cima para longo prazo. Se queremos fixar e trazer médicos para o SUS devemos sim é atuar sobre as escolas que já existem, regular as especializações mediante os interesses do SUS e não do mercado, buscar um plano de cargos, carreiras e salários específicos para a saúde, melhorar a qualidade de vida no trabalho, a segurança e perspectiva de educação permanente, discussão de caso e retaguarda. Se a política de pessoal da prefeitura priorizar intensamente sobre esses pontos as modificações poderão realizar-se em muito menos tempo do que a de formação de uma turma de Medicina e atrairá muito mais profissionais para a rede. A quais interesses político-partidá rios está servindo essa iniciativa?
Novamente a Secretaria de Saúde toma atitudes obscuras, não abre o debate, não reconhece o controle social, não reconhece os movimentos sociais. É bom lembrar que Prefeitura e São Leopoldo Mandic já têm um convênio assinado em que a rede de saúde de Campinas é disponibilizada como campo de estágio para a faculdade. O assunto como um todo não é claramente debatido no Conselho Municipal de Saúde. A Secretaria de Saúde abusa no desrespeito aos cidadãos, ao controle social, aos usuários e trabalhadores e usa de sua própria definição estranha de democracia, teremos o Conselho Municipal de Saúde novamente surpreendido com uma pauta urgente de aprovação de convênio, com o discurso de que “se é contra o convênio é contra a saúde do cidadão”?
Queremos sim uma nova Policlínica, queremos ampliação da atenção especializada, mas devemos discutir amplamente como isso será feito! Será a qualquer custo novamente? Privatizando e terceirizando o SUS? Será abrindo uma faculdade de Medicina para a elite campineira (elite que não reconhece o SUS, que quer mesmo é saber de convênios privados)?
Por tudo isso, estaremos com o CEBES Campinas e o MOPS Campinas em reunião sobre o assunto dia 23/11/2009, às 18:30, no Sindicato da Construção Civil (Rua Barão de Jaguara, 1481, cj. 142).
Sindicato dos Médicos de Campinas e Região
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